Sonho de um carnaval eufórico em Curitiba

Garibaldis & Sacis no Largo da Ordem em 2013 - Foto: Julio Garrido - Reprodução/Facebook Garibaldis & Sacis

Garibaldis & Sacis no Largo da Ordem em 2013 – Foto: Julio Garrido / Reprodução Facebook Garibaldis & Sacis

Foi uma bela tarde no último domingo no Largo da Ordem, em Curitiba. Os Garibaldis & Sacis desceram pelo centro histórico empurrando sua pipoqueira de som e arrastando uma pequena multidão de foliões fantasiados que dançavam e pulavam a batucada das marchinhas de carnaval cantadas por Itaercio Rocha e companhia. A apenas alguns metros de distância, o bloco Caiu no Cavalo Babão (do qual faço parte) tocava clássicos do rock em versões axé, frevo e marcha.

Cada bloco carregava seus seguidores e, quando os dois conjuntos se cruzaram em frente ao Memorial de Curitiba, uma parte dos públicos se misturou, galeras pularam juntas e as baterias se somaram em uma divertidíssima confusão. A PM, que, duas semanas atrás, mandou parar o primeiro ensaio aberto do Caiu no Cavalo Babão depois de 30 ou 40 minutos por perturbação do ambiente, não passou nem perto desta vez, provavelmente mais envolvida com o Atletiba que não aconteceu.

Foi lindo. Fez calor, não choveu, o entardecer deixou o céu alaranjado, o público ficou do início ao fim e as crianças adoraram.

Cansado e com sono, fui para casa e me deitei ainda ouvindo os surdos e caixas repicando. Dormi e tive um sonho bastante agitado: quando me dei conta, estava circulando entre o bairro São Francisco e o Centro de Curitiba, em um domingo de carnaval que parecia tão gostoso como o que eu tinha acabado de testemunhar. A diferença é que, nesse sonho, as ruas estavam completamente tomadas de gente e de blocos dos mais variados. Pareciam as ladeiras de Olinda ou as avenidas do Rio de Janeiro em pleno carnaval.

No Largo da Ordem, não havia espaço para mais nada. Pessoas de todas as idades, cores e sabores pulavam conforme a batucada do momento e ao calor do sol e do céu azul. Crianças fantasiadas penduradas em cima dos ombros dos pais esboçavam sorrisos gigantescos. Senhorinhas sentadas em cadeiras de praia observavam o movimento enquanto cantarolavam as marchinhas e lembravam dos carnavais de outras épocas. Todos os bares e restaurantes da região estavam com as portas abertas e vendiam chopp, cerveja, água e picolé para quem passava.

Na São Francisco, ali na Praça de Bolso do Ciclista, o bloco Brasilidades tocava clássicos da MPB e do samba em altíssimo volume – e as paredes ecoavam os refrãos cantados a plenos pulmões por quem estava por ali. Na praça Tiradentes, o bloco Saí do Armário e Me Dei Bem levantava a sua bandeira colorida e botava mil ou duas mil pessoas purpurinadas para dançar e pular. Ali perto, nos arredores da Catedral e ao lado do Armazém Califórnia, o Caiu no Cavalo Babão juntava curiosos, roqueiros, punks com jaquetas de couro naquele calor infernal e apreciadores de rock de todas as idades.

Mais pra cima, descendo a Alameda Doutor Muricy, passando em frente à Cats, o bloco 10afinados & Daí? finalmente havia arranjado uma caixa de som para amplificar os vocais e a multidão se arrastava ininterrupta atrás deles desde o Alto São Francisco. Por ali, haviam passados três ou quatro blocos nas últimas duas horas: um deles tocando hits de Lady Gaga e Madonna em versões carnavalescas, outro só com canções de Caetano Veloso (voou confete para tudo que é lado quando a banda tocou A Filha da Chiquita Bacana).

Na praça Generoso Marques, em frente ao Paço da Liberdade, um grande bloco com uma bateria admirável tocava delícias de Cartola e Bezerra da Silva em alguns momentos e, em outros, desfilava sambas-enredo memoráveis das escolas de samba do Rio de Janeiro, de São Paulo e, claro, de Curitiba. Em mesas e cadeiras de plástico de botecos de esquina, havia rodas de chorinho para quem aguçava os ouvidos no meio de toda a balbúrdia.

Na Boca Maldita, um palco gigante com programação promovida pela Prefeitura e pela Fundação Cultural fornecia uma programação que levava ainda mais gente para as ruas (Chiclete com Banana às 14h, Orquestra Contemporânea de Olinda às 16h, Criolo às 18h, Victor & Leo às 20h). Na praça do Gaúcho, bandas locais tocavam reggae e rock em um palco improvisado enquanto a pista de skate e as mesas ao redor estavam completamente cheias. Em todos os cantos, policiais militares e guardas municipais em bom número ficavam atentos a tudo e garantiam a segurança – mas eles não precisavam fazer nada, porque todo mundo se divertia e sabia que não precisava arranjar confusão e nem se irritar com nada, porque, afinal, era carnaval.

E, na Marechal Deodoro, os grandes astros e a maior festa: os Garibaldis & Sacis, em cima de um grande trio elétrico, regiam a festa de uma multidão que se estendia do Shopping Itália à praça Zacarias com as cores do bloco que muita gente respeitava por liderar toda a movimentação que era agora o carnaval de rua de Curitiba. De noite, para quem ainda tinha fôlego, o Psycho Carnival tomava as Ruínas do São Francisco com o melhor do psychobilly nacional e internacional, e as escolas de samba do grupo especial da cidade caíam na avenida em um belíssimo desfile competitivo presenciado por um ótimo público.

De repente, acordei com o despertador tocando e me avisando que era segunda-feira. Tinha sido só um sonho… Mas um sonho muito bom.

E um sonho bem possível. Para que se torne realidade, basta que os curitibanos continuem descobrindo, aos poucos, como é legal ficar na rua e se divertir com amigos e com desconhecidos; que outros tantos curitibanos não se oponham tão veementemente ao fato de simplesmente existir carnaval e diversão na cidade; e que a prefeitura se ligue que um carnaval movimenta a economia e deixa as pessoas felizes.

  1. Luiz Nobre

    Compadre a Udeia do 10AFINADOS&DAI??? e se manter sem caixa de som, para que as pessoas peguem o megafone e cantem sem se preocupar se cantam bem ou mal. Somos um bloco vamos dizer de sujo, que só não tá batento panela, por conta que os coxinhas nos” roubaram” este previlegio.
    Nossa intenção sempre foi só realmente brasileiro bicar o carnaval, com todos podendo de tudo; cantar, Tocar, pular, ir fantasiado se quiser, etc….
    Mas valeu a lembrança. Pré carnaval , e isto aí muitos blocos com ” linguagens diferentes” mas todos primando pela alegria.
    Mas não podemos falar do Pré Carnaval, sem falarmos do Carbaval de Curitiba, onde a atual prefeitura cortou em 50% da verba para as escolas de samba; que fazem um trabalho social o ano inteiro nos seus bairros de origem, sendo que grande maioria e da periferia. Mas com certeza a Curitiba ” higienizadora” que esconde-loa embaixo do tapete. E com isto ter a justificativa vá de acabar com as escolas de samba. Eu batalhei é muito por um pré carnaval em Curitiba, e não foi um pré carnaval dissociado do carnaval; não quero é bem vou avalizar um pré carnaval pra classe média hipster, em detrimento do carnaval das escolas de samba da periferia. Posso falar como um dos participantes do 10AFINADOA&DAI??? Pois é este o pensamento de nós que colocamos o pior melhor bloco da cidade na rua.
    Afinal somos, e continuaremos a ser um bloco inclusivo, pois pensamos que a festa tem de ser entendida, como um momento em que todos são iguais na felicidade ou alegria. Claro que sabemos que isto é momentâneo, já que a cidade continua sendo um Relublica de Curitiba.
    Abraços e ÓTIMO CARNAVAL A TODOS!!!!

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s