Psicodália 2017: Foi sensacional! Mas tem algo acontecendo

Foto: Nicolas Salazar / Divulgação

Foto: Nicolas Salazar / Divulgação

Cinco dias e cinco noites de alegria, de música boa e das melhores vibrações possíveis. Assim foi o Psicodália 2017, realizado mais uma vez na Fazenda Evaristo, em Rio Negrinho (SC). O festival carrega toda uma mística própria, uma sintonia coletiva no modo paz e amor que segue fazendo dele – não me canso de repetir – o Melhor Festival De Que Se Tem Notícia.

Em 2017, não foi diferente: de dia, tardes na grama à beira de um lago, descidas de tirolesa e shows suaves. De noite, shows mais intensos e vibrantes. De madrugada, shows absurdos para quem aguenta o tranco e sonecas retumbantes nas barracas para quem não aguenta. No meio disso tudo, cervejinhas, chopps e mais coisinhas que podem fazer da sua experiência algo ainda mais incrível.

O Psicodália é uma grande experiência e, para relatá-lo à altura, é preciso de um grande texto altamente descritivo e psicodélico. Não vou fazer isso aqui no Defenestrando porque já o tentei fazer em 2014, mas nunca consegui terminar aquele relato. Provavelmente haverão várias outras descrições alucinógenas espalhadas pelos sites e blogs desse mundão (como esta, que o chapa Cristiano Castilho escreveu no festival do ano passado. Quando ele publicar seu relato de 2017, atualizo este post).

Foto: Roberto Ambrosio Filho / Reprodução Facebook Psicodália

Galera curtindo um som e um chão à beira do lago. Foto: Roberto Ambrosio Filho / Reprodução Facebook Psicodália

Sobre os shows: altamente politizados. A toda hora, algum músico ou alguém na plateia gritava “Fora, Temer!”, no que o resto do público prontamente atendia e reforçava o coro. Francisco, el Hombre, cujas músicas já dizem bem a visão política do grupo, fez o show mais engajado, mas também o mais enérgico e empolgante de toda a escalação. O Iconili, mesmo sem ter nenhuma letra em suas canções, atacou com sua mistura agitadíssima de metais e percussão e fez algum discurso nos intervalos entre as músicas.

Outros shows: entre os headliners, Ney Matogrosso e Erasmo Carlos fizeram shows medianos e bem abaixo de seus potenciais (sem ter medo de seus próprios hits, o Tremendão empolgou um pouco mais); Céu até que promoveu algum balanço, acompanhada de uma ótima banda de apoio. Metá Metá trouxe a tensão do álbum MM3 e do momento político atual e fez o show mais denso e carregado do Psicodália, como esperado. Liniker & Os Caramellows remontaram canções emocionantes e dançantes, terminando como uma das melhores apresentações do feriado na Fazenda Evaristo. Dingo Bells, na minha opinião, fez o show mais técnico e redondinho – um brinco.

Mas o meu favorito foi o Perotá Chingó: o quarteto formado por duas argentinas, um brasileiro e um uruguaio surpreendeu com canções delicadíssimas e harmonias altamente sofisticadas que iam direto na alma, arrepiando a pele e hipnotizando o público.

Também é legal demais ver como, no Psicodália, o Confraria da Costa se converte instantaneamente em banda de grande porte, completamente acostumada às dimensões do Palco Lunar. Durante todo o show, uma avantajada e divertidíssima roda de empurra-empurra aconteceu em frente ao grupo, enquanto o resto do público cantava todas as músicas, pulava e dançava alegremente – até mesmo lá no fundão, lá nas laterais, em toda a parte.

Entre os headliners, o Tremendão se saiu melhor. Foto: Nicolas Salazar

Entre os headliners, o Tremendão se saiu melhor. Foto: Nicolas Salazar

Cabe ressaltar, no entanto, que o festival passa por um momento de mudança. Já não é de hoje que o público do Psicodália está mudando, mas isso parece ter ficado mais claro agora. Se, antes, todo mundo parecia estar completamente na vibe ~paz & amor~, agora, bem… Digamos que 90% continuava nessa vibe, enquanto o resto estava em um esquema meio paz, amor, selfies e desculpa aí, mas eu cheguei aqui nesse lugar primeiro.

Há pouquíssimos anos, era muito fácil conseguir um bom lugar em frente ao palco mesmo com o show já rolando, não importasse quem estivesse tocando. Mesmo eu, baixinho, conseguia enxergar tudo o que os músicos faziam. Todos na plateia respeitavam o espaço alheio, e isso foi uma das muitas coisas que me deixaram apaixonado pelo Psicodália. Neste 2017, foi o contrário: todo mundo parecia apertado. Alguns shows foram extremamente difíceis de enxergar, e me vi bastante surpreendido por ter que chegar com dez ou vinte minutos de antecedência para conseguir um bom lugar nos shows da Céu e do Francisco, el Hombre – uma coisa que, nos anos anteriores, simplesmente não era necessário.

No grupo oficial do Psicodália no Facebook, há vários relatos de roubos, de situações de má educação com os atendentes e equipes de limpeza, de descuido com a natureza e de alguns desentendimentos – alguns indicativos de que mais pessoas também sentiram que as boas vibrações já não são mais não tão RESPLANDECENTES como costumavam ser, apesar de continuarem maravilhosas. A Fazenda Evaristo parece meio saturada, não dando conta de escoar o lixo e os dejetos de um público recorde: foram 6,5 mil pessoas, segundo a assessoria de imprensa.

Uma parte disso também está ligada ao aumento dos preços: os ingressos ficaram muito mais caros ao longo dos anos (a ~galera mais roots~ nem sempre consegue dar conta de pagar um ingresso que começa em 350 reais no primeiro lote e que passa dos 400 no último), o que acaba por atrair, sim, um novo público. Um público mais jovem e com mais dinheiro, que não está mais necessariamente interessado em desconectar do caos e curtir o momento, mas tentar curtir o momento enquanto conectado, da mesma forma como fazem em outros festivais caros.

Frequentadores mais antigos dirão que essa mudança não é de agora. Eu mesmo faço parte desse novo público, já que só fui ao Psicodália pela primeira vez em 2014 e que ele acontece desde o início da década passada. Aqui, temos que pontuar: não se trata de dizer catastroficamente que essa nova galera está ESTRAGANDO o Psicodália. Mas, sim, de dizer que esse novo público pode tentar entender que o Psicodália não é só o carnaval de bebedeira, drogas e fiasco. Que a loucuragem existe sim, mas que a parada vai mais além e que há mais valores envolvidos.

Não se engane: o Psicodália continua sendo o Melhor Festival De Que Se Tem Notícia. Que evento de médio-grande porte se preocupa em fazer uma emissora própria como a Rádio Kombi para transmitir música de qualidade e recados de interesse público?

Mas a organização precisa se ligar: se as good vibes – que tanto fazem deste um evento apaixonante – começarem a ir diminuindo à mesma proporção em que o preço dos ingressos continua subindo e a quantidade de gente continua aumentando, o Psicodália pode, em breve, se tornar Um Festival Como Qualquer Outro. Veremos as cenas dos próximos capítulos.

* * *

Em tempo – A respeito do grande esforço do Psicodália para causar o menor impacto ambiental possível, vale reproduzir esse trecho do release enviado pela assessoria de imprensa:

Há cinco anos, o Psicodália começou a implantação de banheiros secos. Durante esse tempo, o evento se tornou um centro de pesquisa no assunto. Nesta edição, a economia gerada pela criação girou em torno de 50 mil litros de água. Cerca de 150 bombas foram utilizadas e, durante o ano, elas receberão tratamento para virar adubo. Este ano, o festival implantou ainda o mictório feminino, também com o intuito de diminuir o uso de água.

Segundo Jéssica Pertile, bióloga responsável pelo gerenciamento de resíduos, cerca de 130 lixeiras ficaram espalhadas por toda a fazenda para coleta seletiva. 50 monitores orientaram o público sobre como separar corretamente o lixo. “Essa separação correta diminui 70% do lixo gerado no evento que precisa ser enviado para aterro sanitário”, explica Jéssica. Ao todo, esta edição do festival gerou apenas três caçambas de lixo não reciclável. Já os restos de alimentos vão para compostagem na própria fazenda. O ano também foi marcado pela troca de produtos de limpeza por outros menos agressivos à natureza. O multiuso foi substituído por vinagre, bicarbonato de sódio e óleo essencial de lavanda.

Meu único registro de dentro da Fazenda Evaristo

Meu único registro de dentro da Fazenda Evaristo. Já ficam as saudades.

  1. Sofia Ricciardi Jorge

    Fui em 2010 ou 2011, não lembro agora, eu e um amigo para trabalhar, sem conhecer nada e nem ninguém, sem nem saber exatamente no que estávamos nos metendo e foi o melhor carnaval da vida. Desde então, todo ano eu fico me ensaiando pra comprar ingresso, mas a cada aumento de preço e a cada pessoa que diz que vai, eu desanimo. Fico com um medo danado de ir e me decepcionar, perder a memória boa de uma vibe que guardo sem nenhuma fotografia – pq iPhone era coisa de rico e 3G eu acho que devia ser ficção científica na minha cabeça de portadora de Nokia sem câmera.
    ….Ou talvez eu só tenha me tornado a chata que diz “na minha época era mais legal”.

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    • Pablo Alonso Pagno

      Meu primeiro Psico foi em 2011, tudo maravilhoso, vibe excelente, energia positiva, não se via uma chepa de cigarro no chão!!! Em 2012 já notei mudanças de comportamento por parte do público, que já era maior, como alguns citados na matéria. Falhei em 2013, e em 2014 o público do festival já era outro, como se aquelas pessoas tivessem ido ao festival por falta de opção mesmo, Em 2015 tive minhas primeiras decepções no festival: Presenciei uma briga, vi muito lixo no chão, comparando com os outros anos, muita gente não colaborou com a limpeza dos banheiros, tocaram o “foda-se eu paguei a entrada” e o “Paz e Amor”, espírito do festival, parece ter ficado um pouco pra trás. Não fui nas últimas 2 edições…

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  2. Jader

    Parabéns pelo excelente texto, mas principalmente por sua opinião, sobre o festival. Fui a última edição em São Martinho, e várias em Rio Negrinho, é tive a msma visão que você já a uns 4 anos atrás. Financeiramente, ficou inviável pra mim ir as últimas edições. Falando sobre o público, lembro do cantor Pla, (figura carimbada em edicoes anteriores) alertar sobre ñ transformar o festival em uma extensão do carnaval tradicional, é pelo que vivi, é por seu relato, infelizmente acabou acontecendo. Antigamente, minha barraca ficava aberta, com pertences, bebidas, tudo a mostra, é nunca tive problema cm furtos. Realmente é uma pena, mas concordo que continua sendo o melhor festival de todos. Abraço e mais uma vez parabéns pelo relato.

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