Há espaço para as mulheres na cultura em Curitiba? Elas respondem

Foto gentilmente cedida por Bruno Stock – fatoouficcao.com

***UPDATE: Esta publicação foi atualizada com um testemunho que envolve bropriating e a publicação deste post. Confira no final do texto.***

Muito mais do que comemoração, o Dia Internacional da Mulher é um ótimo momento para a reflexão. Um dia para você parar o que está fazendo por um instante e tentar entender os motivos pelos quais as mulheres ganham menos que os homens em todos os cargos, por que um a cada três brasileiros pensa que a culpa do estupro é das mulheres, por que há um estupro a cada onze minutos no Brasil, por que quase um terço dos brasileiros prefere que as mulheres não tenham um emprego e fiquem em casa, por que 93% das brasileiras entre 18 e 24 anos precisam mudar algo no comportamento para evitar de serem assediadas, e o que é que raios existe na construção desta sociedade que faz com que muitas mulheres se posicionem contra o feminismo.

Há muito mais coisas sobre as quais refletir, na verdade. E não é só neste 8 de março que você deveria pensar nisso, mas em todos os dias do ano. Pelo menos, ter esse ponto de partida já ajuda.

Seguindo a ideia de provocar a reflexão, este blog se voltou ao seu tema principal – música e cultura em Curitiba – e pediu a opinião de várias mulheres ligadas à área cultural na cidade. Para todas elas, fizemos a seguinte pergunta:

Há espaço para a mulher na cultura em Curitiba? O que as mulheres já conquistaram no âmbito cultural da cidade e o que elas ainda precisam conquistar?

Recebemos algumas respostas, e este post será atualizado à medida em que formos recebendo mais opiniões. Acompanhe:

Sobre a primeira pergunta, eu sairia um pouco do âmbito da cultura. Eu acho que há de ter espaço para a mulher em qualquer lugar que ela queira estar. E, se a gente tiver dificuldades para entrar nos espaços, a gente faz uma força. Arromba a porta! [Risos] Olha, temos uma representatividade gigantesca no âmbito cultural da cidade. Temos grandes nomes de grandes entidades sendo gerenciadas por mulheres. Muitas iniciativas culturais de diretoras, produtoras, de atrizes… Temos um movimento cultural feminino forte em Curitiba. Sobre o que falta para nós conquistarmos… não sei, o céu é o limite? Há um limite pra isso? Acho que não há um limite para o que ainda temos que conquistar. Em resumo, acho que o movimento cultural precisa de mais respeito e investimento, de um olhar mais cuidadoso da iniciativa pública. Precisamos que nosso trabalho seja mais respeitado!
Bina Zanette – Produtora cultural, Santa Produção

Como mediadora do projeto Leia Mulheres, vejo um interesse maior pelo diálogo quando se trata da literatura feita por mulheres. Percebo atenção nesta produção e vontade de discuti-la de forma crítica. Mas, claro, isso vindo da direção de outras mulheres leitoras, autoras, críticas literárias e tradutoras. Para além, sinto e vejo resistências e estigmatização por parte dos homens, os eventos literários na cidade ainda os priorizam, assim como apenas nomes tradicionais da literatura, algo bastante paradoxal em relação à uma cena tão prolífica como a de Curitiba. Sinto muita falta dessa igualdade de visibilidade e da voz dessas mulheres durante os eventos, não apenas para discutir a autoria e as adversidades, mas para compor discussões para além do Gênero, em termos de paridade mesmo. Em Curitiba, a literatura ainda é dominada pelos homens. Infelizmente, ainda nos é relegado um lugar de exceção.
Emanuela Siqueira – Livreira, tradutora e mediadora do Leia Mulheres de Curitiba.

Curitiba tem e teve várias mulheres produtoras, pesquisadoras, pensadoras e artistas incríveis e que, embora apareçam bem menos do que os homens, têm seu espaço dentro do mercado de trabalho. A atual realidade não deixa de ser uma vitória, porém há muito ainda a ser alcançado. É preciso de mais respeito. Precisamos dialogar mais. Trocar experiências e ideias. É hora de ver o quanto avançamos e o quanto ainda está por vir.
Giusy De Luca – Produtora cultural, Mucha Tinta

Com certeza, existe espaço para a mulher na arte e na cultura de Curitiba. Sempre existiu – e quando esse espaço não era evidente, elas trataram de tornar evidente. As mais incríveis mulheres que encontrei na minha caminhada jornalística e pessoal eram (são) também as mais ‘tranquilas’ com sua arte/trabalho e com o que gostariam de fazer. Uma tranquilidade que vem da serenidade diante do caminho escolhido, o que as deixa prontas para batalhar pelo que for preciso, lidar com os nãos, com o preconceito e com tudo o mais. Mulheres que, invariavelmente, me deixaram também mais forte ao compartilharem comigo suas histórias, sem esconder as inquietudes ao falar das alegrias.  
As conquistas vieram, mas sempre haverá muito por conquistar. Hoje em dia, eu trabalho muito mais com mulheres e isso provocou mudanças em mim. Talvez a maior conquista a ser alcançada seja exatamente a serenidade para traçar a melhor estratégia de ação, sabendo que existem os momentos para silenciar antes de seguir para os próximos degraus.
Adriane Perin – Jornalista e assessora de imprensa, De Inverno

O espaço da mulher na cultura é construído como em todos os lugares: por incentivo e trabalho das próprias mulheres. Eu acredito que nosso espaço ainda seja muito limitado e que existam muitas ressalvas (machistas, diga-se de passagem) para que o trabalho das mulheres seja valorizado, inclusive e principalmente, no caso, culturalmente falando. Eu fico feliz em ver muitas mulheres maravilhosas atuando em diversos segmentos artísticos/culturais na cidade, e acredito que a maior conquista seja dominar cada vez mais esse espaço, com trabalhos de destaque tanto na música, quanto fotografia, dança, cinema, entre outros. Ainda há muito para conquistar, e eu acho que pouco se deve ao talento, e muito à maneira com que a mulher é vista na nossa sociedade.
Natasha Durski – Vocalista da banda The Shorts

A cultura é um ambiente bastante privilegiado, mas, ainda hoje, a condição feminina traz alguns problemas sociais intrínsecos a nossa cultura. Em Curitiba, as mulheres conquistaram espaços, e mesmo tendo diversas ótimas diretoras de cinema e produtoras, o protagonismo feminino ainda incomoda. O desafio é o respeito pelo protagonismo, pelo trabalho e pelas decisões de uma mulher no comando. Conquistar um ambiente de trabalho sem assédio moral ou sexual, mansplaining e salários equiparados seria um bom começo.
Mariana Souza Bernal – Film maker e produtora cultural

Eu acho que a mulher vem conquistando e se firmando na área cultural da cidade há muito tempo. Cheguei em Curitiba em 1999 e, de lá pra cá, só vejo crescer o número de cantoras e compositoras que lançaram seus álbuns, que se auto produzem e que estão sempre batalhando por suas carreiras. Vejo mulheres atuando com muita competência como iluminadoras, diretoras de teatro e dança, escritoras, atrizes, bailarinas, figurinistas, bonequeiras, produtoras, designers; empreendedoras abrindo espaços alternativos e ocupando as ruas; locutoras e jornalistas que se destacam entre suas equipes. As transformações são lentas, mas elas estão acontecendo. Acho que o que falta é unirmos forças: juntas, seremos mais fortes e teremos uma classe artística fortalecida e com mais visibilidade.
Thayana Barbosa – Cantora, Mundaréu e Garibaldis & Sacis

Rebobinando nosso 2017, penso que a cultura começou o ano perdendo espaço na cidade, vide o cancelamento da Oficina de Música, a paralisação das atividades da Orquestra Sinfônica do Paraná e do Balé Teatro Guaíra… Garibaldis & Sacis foram pra rua mesmo sem o apoio da prefeitura, a zombie walk quase foi cancelada… Aliás parece que o prefeito tem um certa simpatia por zumbis, cidade vazia, toque de recolher, pulseirinhas, medo, vigilância. Bem, diante deste cenário, claro que falta espaço para a mulher.
As conquistas pipocam em varias áreas de maneira independente, artesanal. Vejo, todos os dias, mulheres incríveis promovendo a arte e a cultura. Muitas meninas se organizando, se unindo, produzindo coisas fantásticas. Espaços físicos como o Das Nuvens e o Edifício Anita, produtoras, curadoras e idealizadoras promovendo eventos, abrindo outros espaços! Nesta quarta-feira (08/03), iremos parar pela conquista de novos espaços. Vamos parar pela conquista de direitos básicos do ser humano: Igualdade e Liberdade. E amanhã (e sempre) será dia de lutar por todos.
Mitie Taketani – Empresária, Itiban Comic Shop

O espaço feminino na cultura em Curitiba é sempre conseguido na base do soco. Sempre trabalhamos em minoria expressiva em relação a homens, nossas conquistas vêm de anos de jornada e do suporte mútuo de uma a outra, faltam iniciativas de representatividade.
Fala-se muito em respeito e equidade de gênero mas, no dia-a-dia o espaço da cultura em Curitiba se resume à mesma panelinha de sempre. Ninguém entra, ninguém sai.
Tem mulher produtora com potencial imenso, tem mina muralista que merece também ter um espaço de visibilidade, Curitiba tem uma quantidade absurda de cantoras boas, DJs, artistas plásticas, diretoras de cinema!
E cadê? Como faz pra pegar a nossa vez?
Bila Sampaio – DJ e produtora cultural, nos comentários na página do Defenestrando no Facebook


E você, o que acha da presença das mulheres no cenário cultural em Curitiba? Elas têm espaço ou ainda falta muita visibilidade? O que é preciso para melhorar esse cenário e o que ainda há para conquistar? Fique à vontade para deixar sua opinião nos comentários!

* * *

TESTEMUNHO: Ao ser um homem e fazer um post em que mulheres têm voz para falar de machismo, eu sabia que havia alguma chance de eu cometer alguma falta e esse tiro sair pela culatra. Pois, bem: aconteceu. Até a tarde da última terça, 07/03, eu não tinha tido a ideia para fazer esse post. A inspiração só surgiu depois que outra jornalista, a Patricia Herman (que, no caso, namora comigo <3), perguntou se eu não escreveria sobre o assunto, já que o feminismo foi uma das bandeiras que resolvi levantar ao retomar o Defenestrando. No começo, fiz uma cara esquisita e não levei a ideia em conta, mas pouco tempo depois pensei melhor e resolvi ir em frente.

A Patricia tinha falado de escrever algo incentivando algum projeto feito por mulheres ou convidar alguém para escrever aqui no blog. Eu pensei um pouco e resolvi convidar várias mulheres e fazer a todas elas a mesma pergunta. Incerto sobre a abordagem desse questionamento, pedi uma luz para Patricia, que afirmou que essa parecia ser uma pergunta adequada para o contexto.

Perguntas enviadas, enquanto eu preparava esta publicação, pedi que ela me ajudasse a compartilhar o post no Facebook em que eu repetia a mesma pergunta ao público. Depois de tudo isso, publiquei este post que você está lendo e não dei nenhum crédito à Patricia – e eu fiquei aqui, numa boa, ganhando fama e aparecendo como o homem sensibilizado que dá espaço para as mulheres.

Bom. Isso tem um nome: se chama bropriating. É quando um homem se apropria do discurso ou das ideias de uma mulher e leva os créditos por isso. É uma forma de machismo, e o machismo pode estar nos detalhes mais sutis – até mesmo quando você tem boas intenções e escreve um post tentando combater o machismo (lá no Think Olga tem um post bem explicativo sobre o bropriating e outros termos). Ideias para pautas, textos, posts e até livros surgem de terceiros o tempo todo, mas neste caso específico, me pareceu bastante importante fazer essa retratação. Torço para que o meu caso possa estimular a reflexão para quem, assim como eu, jura (ou jurava) não ser machista.

Um Comentário

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