A noite em que uma criança perdeu a entrevista com Criolo e Emicida [Def-Relevo #03]

O Defenestrando mantém uma coluna mensal meio maluca sobre música ou o que mais der na telha no Jornal RelevO. Se você não sabe, o RelevO é um jornal literário produzido em Araucária, na região metropolitana de Curitiba, e distribuído gratuitamente em várias cidades do país. Abaixo, segue o texto da coluna da edição de junho. Em julho, tem mais.

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Emicida e Criolo em 2013. Foto: Divulgação

Em uma época em que coisas reluziam, as cores eram em preto e branco e o povo andava pelas ruas, uma criança seguiu pelos corredores de uma casa de shows em Curitiba. Ela acompanhava os passos rápidos de uma assessora de imprensa que deslizava com pressa. Era uma noite fria de junho de 2013 e a Copa das Confederações daquele ano estava começando em Brasília. Portanto os fatos narrados aqui aconteceram há mais de setecentos anos.

A criança tinha uma missão: entrevistar Criolo e Emicida, que fariam um show em conjunto. Com pouca experiência em entrevistas, ela deveria falar, ao mesmo tempo, com os dois maiores rappers do Brasil naquele momento – nenhum deles conhecido por ficar empolgado ao atender a imprensa. A criança já era pequena, se apequenava diante da situação que vinha pela frente e tornava-se praticamente microscópica diante da assessora de imprensa, moça de beleza absurda e um olhar perfurante que poderia fazer celebridades dizerem “Ok”.

A casa de shows era a Live Curitiba (que, na pré-história da história e da pleura, ainda se chamava Curitiba Master Hall). A criança seguiu a assessora enquanto esta nadava em braçadas em frente ao palco, até chegar a uma portinha lateral que dava acesso a outro corredor apinhado de gente. Criolo e Emicida estavam lá, tirando fotos com fãs que ganharam uma promoção realizada por uma emissora de rádio.

Rádio era um aparelho eletrônico que existia na época. Era capaz de converter ondas eletromagnéticas que irradiavam pelo ar em sinais elétricos que faziam vibrar uma caixa de som que reproduzia músicas e promoções para shows de rappers.

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Fã, Emicida, fã, Criolo, fã. Foto: Criança

A entrevista tinha sido solicitada por alguém da gravadora que estava distribuindo o DVD que Emicida e Criolo lançavam em conjunto. Um pedido que vinha de cima. Então, a entrevista teria que acontecer, querendo os rappers ou não. A criança também não tinha lá solicitado esse papo.

Após tirar as fotos com os fãs, Emicida atravessou o corredor onde estava a assessora de imprensa fuzilante e a criança.

“Emicida, a gente tem uma entrevista rapidinho com esta criança”, disse a assessora. Emicida olhou para a criança e respondeu, enquanto se lamentava:
“AAAAAAH MAIS UMA ENTREVISTA???”

A criança, que já andava pequena, praticamente evaporou numa dobradura plasmática do tempo e do espaço (algo muito comum naquela época). Segundos depois, a criança ainda estava naquele corredor. Emicida, contrariadíssimo, parou ao lado da criança e ficou quieto enquanto a assessora de imprensa esperava Criolo terminar a conversa com os fãs.

“Eu tava lá naquele show da Karol Conká no Teatro Paiol que você participou. Foi massa”, disse a criança, tentando amenizar o clima com Emicida.
“Daora.”
“Você chegou a trocar mais ideia com ela?”
“A gente se trombou.”

Os próximos segundos de espera duraram horas até que Criolo apareceu, de calça branca, camisa social amarela e uma jaqueta do Paris Saint-German, um time de futebol da França (a França era um país que existia na época). A assessora levou todos a um camarim vazio, porém com cara de camarim, com lâmpadas ao redor do espelho, coisas daquele tempo. Uma sala grande em que ficaram apenas a criança em frente a um sofá no qual sentavam os maiores rappers do país. Num canto, um fotógrafo; noutro canto, a assessora.

A criança respirou fundo, voltou a existir e adquirir tamanho, pegou o celular do bolso, ligou o gravador e fez as perguntas que tinha planejado. Criolo esteve gentil e educado, querendo conversar; Emicida estava ali porque era obrigado. Cinco ou dez ou quinze minutos depois, a assessora indicou o fim do tempo disponível; todos se levantaram e se cumprimentaram; cada um voltou ao seu espaço; a criança viu ao show satisfeita e alegre por ter entrevistado os maiores rappers do país ao mesmo tempo e todos viveram felizes para sempre.

Não. No dia seguinte, de ressaca, a criança foi ouvir a gravação da entrevista no celular e só havia ruídos digitais incompreensíveis. Houve algum problema e o celular não gravou nada. De péssima memória, a criança usou as poucas frases das quais se lembrava para fazer um texto de três ou quatro parágrafos. Paráfragos. Sumiu no tempo e no espaço outra vez, até criar vergonha na cara, aprender que entrevistas não se gravam com celulares e comprar um gravador. Que era só gravador. Um gravador era um aparelho que convertia ondas sonoras em informações digitais gravadas em um chip.

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Foto: Reprodução

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