Categoria: Defenestrando – RelevO

Guia extrassensorial para cinco músicas selecionadas [Def-Relevo #04]

O Defenestrando mantém uma coluna mensal meio maluca sobre música ou o que mais der na telha no Jornal RelevO. Se você não sabe, o RelevO é um jornal literário produzido em Araucária, na região metropolitana de Curitiba, e distribuído gratuitamente em várias cidades do país. Abaixo, segue o texto da coluna da edição de julho. Em agosto, tem mais. (Leia as colunas anteriores aqui)

Imagem: Wikimedia Commons

Juan, El Marinero, Constantina & Franny Glass (2012)
Às vezes, quando não há ninguém olhando, Juan tira as botas de chuva, põe os pés para fora de algum barquinho emprestado e caminha sobre o mar. Sem qualquer drama, sem qualquer efeito especial, sem qualquer frescura. Apesar da discrição, o hábito ficou bastante conhecido na pequena vila de pescadores, onde alguns pensam que ele é um peixe e outros pensam que isso é uma idiotice. As crianças não estão nem aí e, sabendo que isso é o mais próximo que chegarão de um astro em todas as suas vidas, correm para tirar fotos com ele e pedir autógrafos. Juan, o marinheiro, tem quarenta anos de idade, apesar de aparentar ter apenas dez. E alguns pensam que tudo isso é uma idiotice.

Que Sera, Wax Tailor (2005)
Cenas de um filme noir. Alguém com um chapéu que cobre os olhos e um sobretudo com a gola levantada até a altura do nariz se esgueira pelas sombras de um metrô praticamente vazio. Na estação indicada previamente, a pessoa desembarca, sobe as escadas e segue pela noite sem se incomodar com a chuva grossa, as poças de água e as pilhas de lixo no chão. Dobra uma ou duas esquinas e entra por uma porta que deveria estar destrancada. No bolso, um volume pesado. Quem irá morrer?

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A noite em que uma criança perdeu a entrevista com Criolo e Emicida [Def-Relevo #03]

O Defenestrando mantém uma coluna mensal meio maluca sobre música ou o que mais der na telha no Jornal RelevO. Se você não sabe, o RelevO é um jornal literário produzido em Araucária, na região metropolitana de Curitiba, e distribuído gratuitamente em várias cidades do país. Abaixo, segue o texto da coluna da edição de junho. Em julho, tem mais.

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Emicida e Criolo em 2013. Foto: Divulgação

Em uma época em que coisas reluziam, as cores eram em preto e branco e o povo andava pelas ruas, uma criança seguiu pelos corredores de uma casa de shows em Curitiba. Ela acompanhava os passos rápidos de uma assessora de imprensa que deslizava com pressa. Era uma noite fria de junho de 2013 e a Copa das Confederações daquele ano estava começando em Brasília. Portanto os fatos narrados aqui aconteceram há mais de setecentos anos.

A criança tinha uma missão: entrevistar Criolo e Emicida, que fariam um show em conjunto. Com pouca experiência em entrevistas, ela deveria falar, ao mesmo tempo, com os dois maiores rappers do Brasil naquele momento – nenhum deles conhecido por ficar empolgado ao atender a imprensa. A criança já era pequena, se apequenava diante da situação que vinha pela frente e tornava-se praticamente microscópica diante da assessora de imprensa, moça de beleza absurda e um olhar perfurante que poderia fazer celebridades dizerem “Ok”.

A casa de shows era a Live Curitiba (que, na pré-história da história e da pleura, ainda se chamava Curitiba Master Hall). A criança seguiu a assessora enquanto esta nadava em braçadas em frente ao palco, até chegar a uma portinha lateral que dava acesso a outro corredor apinhado de gente. Criolo e Emicida estavam lá, tirando fotos com fãs que ganharam uma promoção realizada por uma emissora de rádio.

Rádio era um aparelho eletrônico que existia na época. Era capaz de converter ondas eletromagnéticas que irradiavam pelo ar em sinais elétricos que faziam vibrar uma caixa de som que reproduzia músicas e promoções para shows de rappers.

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Fã, Emicida, fã, Criolo, fã. Foto: Criança

A entrevista tinha sido solicitada por alguém da gravadora que estava distribuindo o DVD que Emicida e Criolo lançavam em conjunto. Um pedido que vinha de cima. Então, a entrevista teria que acontecer, querendo os rappers ou não. A criança também não tinha lá solicitado esse papo.

Após tirar as fotos com os fãs, Emicida atravessou o corredor onde estava a assessora de imprensa fuzilante e a criança.

“Emicida, a gente tem uma entrevista rapidinho com esta criança”, disse a assessora. Emicida olhou para a criança e respondeu, enquanto se lamentava:
“AAAAAAH MAIS UMA ENTREVISTA???”

A criança, que já andava pequena, praticamente evaporou numa dobradura plasmática do tempo e do espaço (algo muito comum naquela época). Segundos depois, a criança ainda estava naquele corredor. Emicida, contrariadíssimo, parou ao lado da criança e ficou quieto enquanto a assessora de imprensa esperava Criolo terminar a conversa com os fãs.

“Eu tava lá naquele show da Karol Conká no Teatro Paiol que você participou. Foi massa”, disse a criança, tentando amenizar o clima com Emicida.
“Daora.”
“Você chegou a trocar mais ideia com ela?”
“A gente se trombou.”

Os próximos segundos de espera duraram horas até que Criolo apareceu, de calça branca, camisa social amarela e uma jaqueta do Paris Saint-German, um time de futebol da França (a França era um país que existia na época). A assessora levou todos a um camarim vazio, porém com cara de camarim, com lâmpadas ao redor do espelho, coisas daquele tempo. Uma sala grande em que ficaram apenas a criança em frente a um sofá no qual sentavam os maiores rappers do país. Num canto, um fotógrafo; noutro canto, a assessora.

A criança respirou fundo, voltou a existir e adquirir tamanho, pegou o celular do bolso, ligou o gravador e fez as perguntas que tinha planejado. Criolo esteve gentil e educado, querendo conversar; Emicida estava ali porque era obrigado. Cinco ou dez ou quinze minutos depois, a assessora indicou o fim do tempo disponível; todos se levantaram e se cumprimentaram; cada um voltou ao seu espaço; a criança viu ao show satisfeita e alegre por ter entrevistado os maiores rappers do país ao mesmo tempo e todos viveram felizes para sempre.

Não. No dia seguinte, de ressaca, a criança foi ouvir a gravação da entrevista no celular e só havia ruídos digitais incompreensíveis. Houve algum problema e o celular não gravou nada. De péssima memória, a criança usou as poucas frases das quais se lembrava para fazer um texto de três ou quatro parágrafos. Paráfragos. Sumiu no tempo e no espaço outra vez, até criar vergonha na cara, aprender que entrevistas não se gravam com celulares e comprar um gravador. Que era só gravador. Um gravador era um aparelho que convertia ondas sonoras em informações digitais gravadas em um chip.

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Foto: Reprodução

Envie seu trampo, sua música, sua pleura para defenestrandoblog@gmail.com

Drake, não roube a minha banda. [Coluna Def-RelevO #02]

O Defenestrando mantém uma coluna mensal (de qualidade bastante questionável) sobre música ou o que mais der na telha no Jornal RelevO. Se você não sabe, o RelevO é um jornal literário produzido em Araucária, na região metropolitana de Curitiba, e distribuído gratuitamente em várias cidades do país. Abaixo, segue o texto da coluna da edição de abril. Em maio, tem mais.

Drake, More Life

Sr. Drake,

Espero que o Sr. esteja feliz. Espero que o Sr. esteja tranquilo e feliz, no sossego da paz de espírito do trabalho de divulgação de seu novo disco, esse tal de More Life, que o Sr. acabou de lançar.

Não sei bem quem é o Sr. e nem o que o Sr. deseja fazer da sua vida. Mas gostaria de fazer um pedido ao Sr.: não roube a minha banda de mim.

O Sr. sabe muito bem do que eu estou falando. O Sr. começou a primeira faixa desse seu disco novo com um sample do Hiatus Kaiyote. O Sr. deve saber, imagino, que o Hiatus Kaiyote é uma banda australiana completamente aleatória. Que eles lançaram um álbum ótimo chamado Tawk Tomahawk em 2012. Que, em 2013, eles foram indicados ao Grammy na categoria Melhor Performance R&B pela canção Nakamarra, com a participação do Q-Tip, do grupo A Tribe Called Quest. Que, quando isso aconteceu, foi um fato bastante aleatório, primeiro, porque o Hiatus Kaiyote não faz R&B; segundo, porque a banda era completamente desconhecida na época e a própria imprensa australiana publicou umas notícias dizendo “Que banda australiana é essa que foi indicada ao Grammy e a gente nem conhece?”. Que, em 2015, eles lançaram um segundo álbum chamado Choose Your Weapon e que, de repente, a banda ficou grande, apesar de que esse álbum é bem menos interessante do que o primeiro. Foi aí, imagino, que o Sr. conheceu o Hiatus Kaiyote.

O Sr. não sabe, no entanto, que eu estava lá desde muito antes do Sr.

Em 2013, quando eu vi, perdida nos rincões da internet, a capa completamente psicodélica de Tawk Tomahawk com um coiote raivoso e insano, onde o Sr. estava? Quando eu ouvi o disco pela primeira vez e declarei o meu amor imediatamente e decidi me casar com o Hiatus Kaiyote da mesma maneira que Borat decide se casar com Pamela Anderson, o que o Sr. estava fazendo? O Sr. provavelmente estava cantando Started from the bottom now we here em todas as principais cidades da América do Norte e da Europa.

Mas o Sr. fique sabendo que começar a carreira aos 15 anos em uma novela na TV canadense não é exatamente começar lá de baixo.

O Sr. fique sabendo que, em 2015, o Hiatus Kaiyote veio fazer um show em São José dos Campos em um festival com quatro bandas; que eu tive que dar um jeito de sair mais cedo do trabalho, pegar um avião até São Paulo e um ônibus até São Bernardo; que ninguém do público conhecia o Hiatus Kaiyote quando eles foram a última banda a subir ao palco; que eles fizeram um show lindo, mas que, no final, eu percebi que eles não iam tocar Lace Skull, a minha música favorita na época; que eu fui até a beira do palco e pedi educadamente para a vocalista Nai Palm para que eles tocassem essa música; que essa mulher maravilhosa piscou para mim e fez um sinal de joinha; que a banda saiu do palco e, quando voltou para o bis, Nai Palm, sorrindo, falou que eles iriam tocar uma música que fazia tempo que não tocavam, e que esta música seria dedicada a uma pessoa; que depois disso, ela apontou para mim; que ela olhou para mim várias vezes durante a música; que eu não sabia exatamente como reagir enquanto isso tudo acontecia; que, após o show, eu fui tietá-los ao lado de várias pessoas que não conheciam a banda mas ficaram maravilhadas com o som; que uma tiazona estava completamente alucinada com a banda e não parava de elogiá-los; que eu contei para essa tiazona que eu tinha vindo de Curitiba só para ver o show e que ela ficou ainda mais alucinada depois disso; que ela se virou para a banda e falou que eu tinha pegado um voo de seis horas só para ver o show; que eu não sei de onde essa tiazona tirou essa informação; que após ela dizer isso, a banda ficou super feliz e fez questão de tirar uma foto comigo; que, depois de tudo isso, eu não cabia em mim mesmo e que voltei, literalmente, saltitando de alegria pelas ruas até o hotel onde eu iria dormir; e que, antes de dormir, postei a foto no Instagram e, mais tarde, a banda deu um “like” nela.

Perceba então, Sr. Drake, que a banda é muito mais minha do que sua.

Quem é você para abrir o seu disco com um sample da minha banda e sair por aí se pagando de descoladão?

Você não é descoladão, Sr. Drake. Você nunca nem será tão descolado quanto Dr. Drake Remoray, de Days of Our Lives.

Sr. Drake, eu pesquisei na internet e descobri que o seu nome completo não é Drake Remoray. Eu descobri o que o seu nome completo, Sr., é Aubrey Drake Grama. E se eu descobri o seu nome completo, o Sr. nem imagina das coisas que eu sou capaz de descobrir por aí. Isso é uma ameaça? O Sr. entenda isso como o Sr. quiser. Mas é melhor o Sr. ficar de fora disso.

Sr. Drake, eu já tive uma banda uma vez. Era uma banda daqui de Curitiba que era só minha. Mas eu perdi ela para uma garota que eu estava apaixonado. Ela foi comigo a um show e, em vez de ela se apaixonar por mim, ela se apaixonou pelo guitarrista. Foi muito triste. Agora o Sr. vem e me rouba o Hiatus Kaiyote. Agora só falta o Sr. entrar na minha casa e roubar o Kraftwerk.

(Ah, o Sr. não vai me roubar o Kraftwerk, tenho certeza disso. Se o Sr. colocar Kraftwerk em alguma de suas músicas, eles vão lhe processar. Eles vão lhe cobrar milhões de dólares. Eles vão lhe arrancar até esses casacos feios que o Sr. gosta de vestir).

O Sr. fique sabendo que esse seu disco novo é muito chato. Tirando as faixas Get it Together e Madiba Riddim, que são legais, até.

Drake, o Sr. é um bobão.

Atenciosamente,
Felipe

Subida aos céus por meio da percussão [Coluna Def-RelevO #01]

A partir de março, o Defenestrando mantém uma coluna mensal sobre música ou o que mais der na telha no Jornal RelevO. Para quem não sabe, o RelevO é um jornal literário produzido em Araucária, na região metropolitana de Curitiba, e distribuído gratuitamente em várias cidades do país (confira aqui o entrevistão que fiz com Daniel Zanella, o editor do jornal). Abaixo, segue o texto da primeira coluna. Em abril, tem mais.

The Souljazz Orchestra: Foto: Alexandre Mattar / Divulgação

AS PAREDES ESTÃO TREMENDO. O TETO ESTÁ BALANÇANDO! O CHÃO ESTÁ RACHANDO! SÃO OS DEUSES QUE ESTÃO VINDO AÍ! OU É O DIABO? Você está condenado! Algum espírito tomou posse do seu corpo por completo e tudo o que você pode fazer é dançar com movimentos que você nunca imaginou que seu corpo seria capaz de realizar! Fosse na Idade Média ou numa igreja neopentecostal, você estaria condenado à FOGUEIRA e AO INFERNO, seria excomungado, mas, felizmente, você está na vida real e ouvindo o som da Souljazz Orchestra.

Mais especificamente, a música Ya Basta, do álbum Solidarity, lançado em 2012. A Souljazz Orchestra é uma banda de Ottawa, no Canadá. Mas não, também, porque ela é claramente uma banda do mundo (pense em Manu Chao ou Gogol Bordello: eles começaram em algum lugar, mas são do mundo todo).

Em Ya Basta, as guitarras estão explodindo, o baixo está te hipnotizando e a percussão está abrindo um caminho para os céus. Um dos vários vocalistas da banda grita: “Imperialismo?” Um coro responde: “Ya Basta!”. E, assim, nós seguimos:

“Colonialismo? Ya basta!
Fascismo? Ya basta!
Despotismo? Ya basta!
Corrupción? Ya basta!”

Você nem sabe. Você já é parte do coro e está dançando de um modo que nunca dançou. A Souljazz Orchestra entrou pelo seu rádio, tomou e você nem viu. Nesse ponto, a música já está no talo, a percussão explosiva já tomou conta de tudo, de cada espacinho do local em que você está, de cada molécula do ar que você respira, não há mais para onde ir ou para onde crescer.

EPA. NÃO. ESPERE AÍ. DÁ PRA CRESCER, SIM.

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