Marcado: Curitiba

Passeio em pensamentos: novo disco da e/ou é um desafio delicioso

e/ou

e/ou.

“Nascer é mesmo muito doído, não é? Viver é mesmo muito arriscado, não é?” Questionando a vida em cada esquina com acordes quebrados e dissonância (em tempos em que a dissonância se faz bastante necessária), a banda curitibana e/ou coloca no mundo o seu segundo álbum de estúdio.

Lançado em maio em evento na Sala de Atos do SESC Paço da Liberdade, o disco homônimo vem com dez faixas carregadas de pensamentos e meditações, algo como uma caminhada distante pela cidade ao som de voz suave e tranquila, de violão de nylon ressonante, de baixo preciso e bateria cirúrgica. Uma ginga entre o MPB e o jazz. Vale prestar atenção em faixas como Rosto Feio, Sem Título #1, Una y Otra, Até Maio – minha preferida até o momento – e o neo-samba Aquele que Não Veio, que encerra o álbum.

Trata-se de mais um trabalho desafiador lançado pelo selo Onça Discos: e/ou pode parecer meio difícil de engolir à uma primeira audição, mas este é mais um exemplo clássico de som que exige dedicação do ouvinte. A rapadura não é mole, mas será doce para quem se dispôr a mastigá-la; quem ouve gente como Romulo Fróes ou Rodrigo Campos já sabe bem desse tipo de coisa, e o trio curitibano pode ser uma boa descoberta para quem curte esses sons.

O disco, no entanto, não é só música. Há todo um trabalho visual e multidisciplinar que tranforma esse álbum em uma experiência extra-ouvidos. Melhor do que tentar explicar, acho que fica mais fácil transcrever o que o Web Mota escreveu em sua reformuladíssima Musicoteca:

iMPRESSO sONORO é a composição física desse álbum que caminhará por lugares, histórias e mãos. Uma caixa recheada de poesia e arte para experimentação e sugestão da vida, liberadas inicialmente a mais de 200 mãos, todas compostas e construídas pelo grupo. Um coletivo de artistas que se encontraram e permaneceram na história da e/ou em seus processos (…) Sua circulação sugere troca, interação, experimentação, lugares e silêncios de fala, num ilimitável circuito de vida. Quem sabe você em algum momento as encontre por aí.

Abaixo, fique com Rosto Feio, música que abre o disco e serve como um bom abre-alas para todas as faixas que vêm a seguir. Você pode ouvir o álbum na íntegra no Spotify, no Bandcamp da Onça Discos ou na própria Musicoteca.

Mande seu passeio, seu violão, seu som para defenestrandoblog@gmail.com

Bface lança vídeo e o beat é classudo: ouça “O Infame”

Foto: Reprodução / YouTube

MC, produtor e beatmaker de Curitiba, o rapper Bface está com um som e um clipe novo: O Infame. No vídeo, dirigido por Jorge Henrique Stocker e Gustavo Zanetti, Bface está no rolê pela noite curitibana. Uma das locações é o clássico Cobras Snooker Bar, e rola até um chopp no Cachorro Quente, ali na rua XV. Os beats deliciosos e finíssimos são do Frates.

A letra está na descrição do vídeo no YouTube: “My man, eu tô no barco, você também / Goddamm, esse é o maior problema / ninguém sabe qual é o norte e tem cuzão que não rema”, diz um trecho.

O site RND avisa que o MC está em vias de lançar um novo EP. Em 2016, Bface participou de uma Sextape: um belíssimo menage-a-trois protagonizado também pelos MCs Castanha e Lyn’C. O compilado apareceu na lista dos 60 melhores lançamenos do ano no mesmo RND – um dos maiores e mais importantes portais do hip-hop nacional.

Confira O Infame:

Envie seu som ou sua sugestão de pauta para defenestrandoblog@gmail.com

O fabuloso Campeonato Interdrag de Gaymada

Foto: Isabella Leite / Divulgação

O Festival de Curitiba está chegando! É a 26ª edição do grande evento cultural que sobrou em Curitiba. A programação vai de 28 de março a 9 de abril e os ingressos estão à venda há algumas semanas lá no site oficial do evento.

Como de costume, tanto a Mostra Oficial como o Fringe estão recheados de coisas sensacionais. E aqui vai o nosso destaque para…

O Campeonato Interdrag de Gaymada

Campeonatos costumam ser coisas incríveis, e eles ficam ainda mais gloriosos quando dão um jeito de misturar demonstrações culturais a essas disputas (desde 2010, tentamos fazer isso ao organizar a Taça Allejo, um torneio de Super Nintendo disputado por músicos e integrantes de bandas – falaremos sobre isso em breve).

O Campeonato Interdrag de Gaymada é uma das atrações da Mostra Oficial do Festival de Curitiba e vai ainda além nessa mistura, ao juntar um campeonato ao movimento LGBTQI. Trata-se de uma intervenção promovida pelo coletivo artístico Toda Deseo, de Minas Gerais. É um campeonato de Queimada (por aqui, também conhecido como Caçador) com uma chave de oito equipes de seis pessoas, líderes de torcida, uma DJ e uma juíza. Olha o que diz o release oficial da intervenção:

Os times são formados de maneira espontânea, sem distinção de idade, etnia, tipo físico e, principalmente, identidade ou orientação sexual. A proposta é um espaço de convivência entre diferentes corpos, a partir do tradicional jogo de queimada. Na dinâmica entre as partidas e os intervalos, o coletivo direciona o público com uma serie de performances e manifestos coletivos.

O Toda Deseo é um coletivo de atores mineiros, de Belo Horizonte, envolvido em questões relacionadas às pessoas trans. Habitualmente, o grupo faz suas intervenções em espaços públicos, a fim de que a sociedade se envolva, de forma cultural, com a comunidade LGBTQI. Gaymada já reuniu cerca de 15 mil pessoas em suas edições: jovens, crianças, idosos dispostos a ocupar a praça de um modo diferente, em um ato resistência à heteronormatividade e contra preconceitos de toda ordem.

O Campeonato Interdrag de Gaymada durante a Virada Cultural de Belo Horizonte em 2015 – Foto: Mirela Persichini / Reprodução Facebook

Serão dois campeonatos abertos ao público durante o Festival de Curitiba: dia 29/03, quarta-feira, às 16h na Praça Osório; e dia 30/03, quinta-feira, às 16h no Passeio Público. Tudo é aberto ao público – tanto para assistir como para participar.

Serviço:
O Campeonato Interdrag de Gaymada
29/03, quarta-feira, Praça Osório, 16h
30/03, quinta-feira, Passeio Público, 16h
Entrada Franca
Mais informações no site do Festival de Curitiba

* * *

Mande seu som, sua opinião, sua ideia de post ou sugestão de pauta para defenestrandoblog@gmail.com

DefNews #01: Katze, Mulamba, Audac, Darlene Lepetit, Lux Mundi

DefNews é o boletim de coisas que eu deveria colocar em posts separados, mas que eu me enrolei, perdi a hora certa de publicar e acabei juntando tudo em um post só (tudo isso, óbvio, referindo-se ao universo da música alternativa em Curitba). Vamos lá:

* * *

Katze é o projeto solo de Katherine Finn Zander, uma das integrantes da girl band Cora. Ela prepara o lançamento de seu EP de estreia: Moon Phases of a Relationship está previsto para chegar ao mundo ainda neste mês (tem mais informações sobre isso lá no site da Vista). Em meados de fevereiro, ela soltou o vídeo de Waxing Moon, o primeiro clipe do projeto. Ilustrando bem o que a canção tem de indie eletrônico suave, o vídeo foi produzido pelos Rasputines e protagonizado pela própria Katherine e seu dog, o Lobo – “Um cachorro como poucos: oferecido, derretido e que nunca passa despercebido. Logo, o melhor indivíduo para protagonizar esse clipe, que conta a história do começo de uma relação com um cara que lembra muito um dog fofo e vira-lata, desses bem sem-vergonha”, diz a descrição do vídeo no YouTube.

A Mulamba também prepara o lançamento de seu primeiro EP. O compilado deve sair no máximo até o fim do semestre, mas a faixa Provável Canção de Amor para a Estimada Natália foi lançada na última edição da revista digital QRtunes. Clique aqui para ter acesso à revista – mas você vai precisar de um leitor de QR code para conseguir ouvir a música. A Mulamba é uma das bandas mais impactantes a surgir no cenário curitibano nos últimos anos e, enquanto o resto do EP não é lançado, eu aproveito para avisar por aqui que, no último fim de semana, bati um papo sensacional com a violoncelista Fer Koppe, uma das integrantes do grupo – e o resultado dessa conversa será publicada em forma de entrevistão aqui no blog. Em breve, num Defenestrando perto de você.

Mulamba no QRtunes – Imagem: Reprodução

Darlene Lepetit já tem uma das músicas mais grudentas do ano: Passinho da Passiva é o primeiro single da cantora – e a canção é tão divertida quanto o clipe que a acompanha. O vídeo foi gravado com dançarinas e dançarinos fazendo os movimentos que lhes dão na telha em frente à câmera e em meio aos cenários mais variados da cidade de Petrópolis, no Rio de Janeiro. Eu já estou aqui te avisando que, se você der play no clipe abaixo, o refrão vai ficar grudado na sua cabeça por um ou dois dias:

O Audac andava sumido, mas, finalmente, houve um sinal de vida: no último domingo (12/03), a banda publicou uma foto no Facebook com seus integrantes no estúdio Gramofone, em Curitiba. “Agora é de verdade! Em abril, sai um single”, dizia a legenda. O grupo está com a formação bem diferente em relação à que participou da gravação do primeiro disco, homônimo, deliciosíssimo, lançado em 2014 e produzido por Gordon Raphael (The Strokes, Regina Spektor).

Foto: Reprodução / Facebook

Tem rolê legal em Curitiba neste sábado (18/03): Lux Mundi, um festival dearteano. Quem já foi ao DeArtes, sabe do universo paralelo que é o campus da UFPR localizado bem no meio do Batel – agora, imagina um festival durante uma tarde inteira lá. “No dia 18 de março, universitários, artistas, universitários artistas, artistas universitários e seres mágicos abrirão um buraco no espaço-tempo para fazer dessa festa uma verdadeira luz no mundo de Curitiba”, diz a descrição do evento. Haverá shows com as bandas Obake, Os Freakadélicos, Pompeu & Os Magnatas e Expresso Vermelho, além de discotecagem, oficinas, performances e graffiti. Ingressos antecipados já estão à venda por R$ 15 e o evento é restrito a maiores de 18 anos. Confirme presença e saiba mais no Facebook.

Imagem: Reprodução / Facebook

Entre em contato e mande o seu som ou sua ideia de post/sugestão de pauta no e-mail defenestrandoblog@gmail.com

Sonho de um carnaval eufórico em Curitiba

Garibaldis & Sacis no Largo da Ordem em 2013 - Foto: Julio Garrido - Reprodução/Facebook Garibaldis & Sacis

Garibaldis & Sacis no Largo da Ordem em 2013 – Foto: Julio Garrido / Reprodução Facebook Garibaldis & Sacis

Foi uma bela tarde no último domingo no Largo da Ordem, em Curitiba. Os Garibaldis & Sacis desceram pelo centro histórico empurrando sua pipoqueira de som e arrastando uma pequena multidão de foliões fantasiados que dançavam e pulavam a batucada das marchinhas de carnaval cantadas por Itaercio Rocha e companhia. A apenas alguns metros de distância, o bloco Caiu no Cavalo Babão (do qual faço parte) tocava clássicos do rock em versões axé, frevo e marcha.

Cada bloco carregava seus seguidores e, quando os dois conjuntos se cruzaram em frente ao Memorial de Curitiba, uma parte dos públicos se misturou, galeras pularam juntas e as baterias se somaram em uma divertidíssima confusão. A PM, que, duas semanas atrás, mandou parar o primeiro ensaio aberto do Caiu no Cavalo Babão depois de 30 ou 40 minutos por perturbação do ambiente, não passou nem perto desta vez, provavelmente mais envolvida com o Atletiba que não aconteceu.

Foi lindo. Fez calor, não choveu, o entardecer deixou o céu alaranjado, o público ficou do início ao fim e as crianças adoraram.

Cansado e com sono, fui para casa e me deitei ainda ouvindo os surdos e caixas repicando. Dormi e tive um sonho bastante agitado: quando me dei conta, estava circulando entre o bairro São Francisco e o Centro de Curitiba, em um domingo de carnaval que parecia tão gostoso como o que eu tinha acabado de testemunhar. A diferença é que, nesse sonho, as ruas estavam completamente tomadas de gente e de blocos dos mais variados. Pareciam as ladeiras de Olinda ou as avenidas do Rio de Janeiro em pleno carnaval.

No Largo da Ordem, não havia espaço para mais nada. Pessoas de todas as idades, cores e sabores pulavam conforme a batucada do momento e ao calor do sol e do céu azul. Crianças fantasiadas penduradas em cima dos ombros dos pais esboçavam sorrisos gigantescos. Senhorinhas sentadas em cadeiras de praia observavam o movimento enquanto cantarolavam as marchinhas e lembravam dos carnavais de outras épocas. Todos os bares e restaurantes da região estavam com as portas abertas e vendiam chopp, cerveja, água e picolé para quem passava.

Continuar lendo

This Lonely Crowd volta com pedradas e até canta em português em novo disco

this-lonely-crowd-homonimo

This Lonely Crowd deve ser uma das poucas bandas do mundo que têm uma quantidade muito parecida de shows feitos e de discos lançados. Tal raridade configura um grupo bastante inusitado – é sempre um nome para se prestar atenção em Curitiba, principalmente se você é uma pessoa que gosta de noise, porradas sonoras e literatura. Os caras acabam de lançar um novo disco: homônimo, This Lonely Crowd é o sexto álbum cheio da banda e foi lançado no finalzinho de janeiro pela Sinewave, selo que caminha junto ao TLC há alguns bons anos.

Misturando paredes sonoras (ou socos na barriga com guitarras distorcidas) com passagens meticulosamente oníricas, o This Lonely Crowd agora tenta também algumas letras em português, como é o caso de Florbela Ex-Punk, faixa que abre o disco com grande explosão e indica a referência literária já no nome.

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

Como de costume, seus integrantes mudam novamente de identidade neste álbum (agora, são Hurleburlebutz e Bonijov nas guitarras, Trushbeard the King na bateria, a Rainha Branca no baixo e no vocal, e Hamelen no vocal principal e na terceira guitarra). É como se fossem atores encarnando personagens que surgem e desaparecem conforme a história contada em cada disco. É tudo de uma misticidade que ajuda a reforçar o folclore em torno de This Lonely Crowd, diferenciando-a na multidão de bandas da internet e mantendo-a memorável mesmo com tão poucos shows.

Minhas favoritas desse álbum são Vancian Noise e The Penguin Dictionary of Curious and Interesting Numbers, mas isso é só porque eu sou um cara mais tranquilo e gosto de atmosferas suaves. Se você prefere pedradas, tem várias ótimas opções espalhadas pelo disco. Ouça abaixo.

E aqui vai a observação: se você gostou de This Lonely Crowd e ficar sabendo de algum show da banda, não perca a oportunidade de ir vê-los tocar. Pode ser que eles só se apresente de novo quando lançarem outro disco.