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Cora apresenta dream pop intenso em EP de estreia

Cora – Foto: Reprodução

O grupo curitibano Cora é mais um dos nomes a fazer parte do Coletivo Atlas. Isto, por si só, já seria uma boa credencial, mas o projeto liderado por Kaíla Pelisser e Katherine Finn Zander tem ganhado algum merecido destaque nos últimos meses desde o lançamento do EP Não Vai Ter Cora (ouça no fim do post). O título remete ao Não Vai Ter Copa que tomou as ruas do país quando a Copa de 2014 se aproximava – e este fato cronológico revela bastante sobre o EP: gravado em 2015 quando a banda ainda tinha outra formação, o trabalho só foi liberado nas redes em maio deste ano, após reviravoltas que mexeram com o aspecto pessoal das integrantes e com o próprio grupo.

Daí o nome do disco, alguma espécie de brincadeira com o fato de que ele não saía nunca. Mas, saiu, e ganhou repercussão com palavras bastante atenciosas n’A Escotilha, no Monkeybuzz, no Miojo Indie, no Floga-Se e, mais recentemente, no Trabalho Sujo. Bons sinais? Ótimos sinais.

Não Vai Ter Cora tem uma profundidade que vai da sensualidade de uma capa com um abdômen com a calça desabotoada às letras nas quais o duo se abre de forma tocante a respeito de situações reais e bastante delicadas. A distância entre esses dois pontos é grande, mas o dream pop surge como o veículo ideal para fazer flutuar tanto banda como ouvinte por esse caminho: são cinco faixas que, a cada audição, crescem um pouco mais no ouvido.

Minhas favoritas são Mystic Mirror e Meerkat, as mais pesadonas do EP. Também vale o destaque para o clipe de Calandria, cujo visual retrô combina bem com a sonoridade.

Estive no show da Cora no Palco Atlas durante o Dia da Música (24/06) e vale dizer que a banda está redondinha. Trata-se de um rolê bastante recomendável para quem curte Warpaint e adjacências. Acompanhe a fanpage do grupo para saber quando haverá uma nova apresentação.

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“Benvirá”, o EP de estreia de Julien

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Julien Guimarães veio para Curitiba em 2006 para cursar Artes Visuais. No ano seguinte, abandonou o curso para tentar Cinema. Apesar do foco na imagem, Julien também brinca com sons, tanto que compõe desde a adolescência. Em 2013, gravou algumas músicas em um formato bem caseiro e, agora, suas composições ganham um registro mais apurado no EP Benvirá, lançado em dezembro de 2016.

Em cinco faixas, Julien passeia pela musicalidade do samba e da MPB clássica, passando por algum folk e chegando em guitarras levemente distorcidas. São canções repletas de alma – o homem parece estar desprendendo alguns versos há tempos entalados na garganta – em um belo EP de estreia que indica um futuro promissor, se Julien resolver mesmo mergulhar mais a fundo na música.

A Escotilha fisgou a referência no nome e apontou a ligação direta deste EP com o álbum Das Terras de Benvirá, de Geraldo Vandré, gravado na França e lançado pelo cantor paraibano em 1973. Perguntei a Julien sobre o assunto. Segue a resposta:

É um dos meus discos da vida. Um disco que, sempre que ouço, descubro nele uma coisa nova pra gostar. Esse álbum tem uma densidade e uma dor que me impressionam muito e, para o meu EP, acho que dá para fazer um paralelo melancólico do momento político que a gente vive com toda a história do Vandré e desse disco, gravado em exílio durante a ditadura militar.

Mas acho que é uma relação mais sugerida do que incorporada, no sentido de que não é uma referência direta ao disco do Vandré, e nenhuma das canções foi inspirada diretamente no disco ou nas composições dele.

O nome Benvirá tem essa ironia, já que a narrativa do EP vai do colonialismo português ao samba, de uma terra cheia de promessas, de um “vir a ser” em cujas origens está a raiz de muitas das questões que vivemos hoje, de desigualdade, de opressão, de racismo, etc. E as personagens das canções, cada uma é representativa de uma de nossas identidades primeiras (indígena, europeia, africana) lidando com as consequências dessas promessas e violências.

Se você me perguntar, as canções que mais gostei no EP são O Náufrago e Urutau, mas você pode decidir pelos seus próprios ouvidos ao escutar o disco abaixo. Também dá pra ouvir no Bandcamp e no Spotify.